Currículo Novo – Feynman e o Ensino Brasileiro

Talvez você tenha ouvido falar por aí que o Ministério da Educação está estudando mudanças no currículo do Ensino Médio. Essas mudanças tomariam como base a grade de matérias do Enem, que, segundo dados do MEC, tem sido considerado um método de avaliação mais eficiente do que os vestibulares.

A alteração básica seria agrupar as disciplinas independentes – como Português, História e Biologia – em quatro grupos semelhantes aos exigidos pelo Enem: Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens e Matemática. Assim, as matérias seriam estudadas de forma interdisciplinar e voltadas mais para aplicações práticas no cotidiano.

Parece uma mudança muito radical? Nem tanto. Para analisar melhor a ineficiência do sistema de ensino atual, gostaria de citar um cara chamado Richard Feynman.

Richard Feynman foi um físico teórico norte-americano, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1965 e considerado um dos maiores físicos de todos os tempos. Em 1985, lançou um livro entitulado Surely You’re Joking, Mr. Feynman! (algo como “Você deve estar brincando, Sr. Feynman!”), em que, num tom leve e bem-humorado, conta algumas de suas experiências e memórias interessantes. Num dos capítulos, ele relata sua impressão do ensino no Brasil, onde lecionou por alguns meses no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) como professor convidado.

O capítulo pode ser lido na íntegra AQUI. Em linhas gerais, Feynman relata que ficou surpreso ao ver que os brasileiros começavam muito cedo a estudar equações relativamente difíceis, e perceber o quão pouco eles realmente haviam aprendido enquanto palestrava para alunos de Engenharia no CBPF. Ele diz que os estudantes sabiam recitar de cabeça qualquer questão teórica – equações, postulados, etc. – mas quando ele tentava fazer analogias com situações reais, simplesmente não conseguiam aplicar o conhecimento à prática.

Em uma referência clara à famosa decoreba, Feynman diz que somos educados num “sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada”. Mais impressionante ainda, ele conta que em dado momento se resignou e declarou que, afinal de contas, o sistema não poderia ser assim tão ineficaz, pois havia estudado com pelo menos dois físicos brasileiros que considerava muito capacitados. Logo após esta declaração, ambos os físicos citados (que estavam presentes) se levantaram e se pronunciaram a respeito: um deles estudara a vida toda na Alemanha, e o outro era autodidata. Em outros palavras, os brasileiros mais talentosos que ele conhecia não haviam passado pelo nosso sistema educacional.

Lendo isso, é difícil não lembrar daquelas fórmulas do Ensino Médio do tipo “sorvete” (S=So+Vt) ou “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, seno a cosseno b seno b cosseno a” (que aliás, nem lembro pra que serve). Essa matéria da Veja, da época em que foi introduzido o novo Enem, traz bastante informação sobre o assunto.

-Quem aí lembra da equação da fimose?

Agora, um ponto importante: a opinião de Feynmann é bastante válida, mas foi formulada no período em que ele lecionou no Brasil… na década de 50. Temos que admitir que o nosso ensino mudou consideravelmente desde então, e que talvez o problema mais urgente não seja propriamente o currículo. Nessa coluna da Folha, temos um argumento contrário à mudança projetada pelo MEC. Em resumo, a carta ressalta a tradição brasileira de tratar a escola mais como obrigação do que como fundamento, e que não adianta montar uma grade curricular perfeita enquanto os alunos não tenham interesse em estudar. Além disso, o próprio secretário de Educação Básica do MEC, César Callegari, afirma que “o Enem é uma referência importante, mas não é o currículo; ele avalia o currículo”.

Pessoalmente, sou a favor dessa mudança. Considerando que fiz Enem no passado e gostei muito do conteúdo da prova (apesar do modelo exaustivo), acredito que se fosse transferido para a sala de aula, seria muito mais eficiente para preparar os jovens não só para a faculdade, mas também para o mercado de trabalho. Como também nota Callegari, “os jovens têm necessidades econômicas e sociais diferentes. Existe uma pressão para que parte dos jovens ingresse no mercado de trabalho e aí o curso superior entra como uma segunda possibilidade”. E de fato, saber ler e realizar cálculos com rapidez é mais prático no dia-a-dia do que decorar os hormônios presentes nas folhas das angiospermas.

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Publicado em 25/08/2012, em Ciência, Educação, Opinião, Todos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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